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O CONTADOR
Desde: 08/06/2001      Publicadas: 35      Atualização: 26/06/2001

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 Contabilidade

  25/06/2001
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FRAGMENTOS DA HISTÓRIA DA CONTABILIDADE: DA ANTIGUIDADE A LUCA PACIOLI:

FRAGMENTOS DA HISTÓRIA DA CONTABILIDADE: DA ANTIGUIDADE A LUCA PACIOLI:

Carlos Geraldo Caixeta Cruz

Mestrando em Sistema de Informações Contábeis (ULAC) e Professor do Departamento de Contabilidade da UPIS.

Amilton Paulino Silva
Mestrando em Sistema de Informações Contábeis (ULAC) e Professor do Departamento de Contabilidade da UPIS.



1. Introdução


A Contabilidade, hoje estudada e praticada em bases científica e filosófica, originou-se nos primórdios da civilização como uma atividade inicialmente voltada para o simples registro de fatos (basicamente no sentido de controle). A necessidade de tornar eficaz a utilização dos meios materiais fez com que os dados registrados fossem transformados em informação útil, ferramenta indispensável à tomada de decisão. Esta exigência decorreu da própria evolução da estrutura sócio-econômica dos povos, e neste sentido é que se verificaram os progressos dos métodos contábeis.


A utilização de técnicas contábeis primitivas remonta a mais de dez mil anos antes da era cristã e o seu aperfeiçoamento se deu em função de influências multiculturais. É fato, no entanto, que a bibliografia especializada, em particular aquela dedicada à introdução ao ensino de Contabilidade, em sua maioria, pouco discorre sobre os rudimentos históricos dessa ciência na antiguidade. Em consequência, o meio acadêmico, em geral, está habituado a conhecer o pensamento contábil a partir da apresentação do Método das Partidas Dobradas (também conhecido como Método de Veneza), em 1494, em Veneza/Itália, por um frei franciscano chamado Luca Pacioli.


Esse artigo, considerando o objetivo a que se propõe, qual seja o de apresentar, em resumo, a história da Contabilidade inserida no contexto evolutivo da civilização desde a pré-história até a exposição do Método de Veneza, está estruturado em cinco partes:


- Fragmentos contábeis na antiguidade:
identifica, nas eras líticas (Paleolítico e Neolítico), rudimentos históricos associados à técnica primitiva de registro e controle dos meios indispensáveis à sobrevivência humana;


- As contribuições do Oriente: apresenta fatos contábeis identificados na antiguidade, em particular no Egito e na Mesopotâmia, que evidenciam as contribuições dessas civilizações ao desenvolvimento da Contabilidade;


- A herança do Ocidente: discorre sobre a importância da Contabilidade inserida em momentos históricos da civilização greco-romana;


- Retrocesso econômico e estagnação cultural: associa os momentos de estagnação e desenvolvimento do pensamento contábil, a partir do século V d.C., com os períodos de crise e retomada do crescimento sócio-econômico, principalmente na Europa.


- Luca Pacioli – o publicista do Método de Veneza: discorre sobre a apresentação do Método das Partidas Dobradas por Luca Pacioli, em 1494, na Itália.



2. Fragmentos contábeis na Antiguidade


No período do Paleolítico ou da Pedra Lascada os homens viviam em pequenos grupos e não sabiam produzir os meios necessários à sua sobrevivência, o que lhes dava a característica de simples coletores de alimento. Esta economia de subsistência, embora primitiva, pressupunha uma determinada forma de controle do quanto se acumulara e não mais seria necessário buscar na natureza de bens indispensáveis à manutenção da raça humana.


Lâminas de osso de rena, marcadas pela incisão de sulcos que indicam quantidades de algum objeto, foram encontradas na Gruta de D’Aurignac, na França (FIGUIER, 1874 apud SÁ, 1997:21). Tais provas arqueológicas e outras como as pinturas líticas descobertas na Gruta de Niaux, também na França (AQUINO, et al, 1980:66), demonstram a capacidade do homem de 20.000 anos atrás (Paleolítico Superior) em registrar fatos relacionados às suas atividades.


A característica inicial dos registros era apenas de controle quantitativo. De uma maneira intuitiva o homem buscava evidenciar tudo aquilo que conseguira armazenar. Já se configurava, então, os rudimentos de um sistema de natureza contábil.


A partir da era do Neolítico ou da Pedra Polida - no Egito e na Mesopotâmia este período iniciou-se aproximadamente em 10.000 a.C. (AQUINO, et al, 1980:64) - o homem começou a ter uma estrutura social mais aperfeiçoada, cultivando plantas e criando animais. Formas de governo foram se consolidando, constituindo-se uma sociedade organizada, o que veio a proporcionar uma profunda transformação econômica.


Progressos, então, foram observados na forma como o homem procurava registrar seus bens, já que com o início da agricultura e o desenvolvimento das forças de produção foi posssível produzirem-se excedentes.


A nova ordem econômica verificada veio a exigir que o homem da pré-história desenvolvesse formas de registro para manter o controle do produto do seu esforço, inclusive no sentido de relacionar direitos e dívidas assumidos pelo comércio rudimentar praticado. Evidências desse fato podem ser constatadas pelas descobertas feitas em sítios arqueológicos do Oriente Próximo que indicam a utilização de um sistema contábil por meio de fichas de barro entre 8.000 e 3.000 a.C. (SCHMIDT, 1996:19).


Produzindo mais que o necessário à sua manutenção, o homem acumulou riqueza. Este excedente econômico propiciou o incremento da atividade mercantil e com ela a divisão do trabalho se estabeleceu, bem como outros ofícios manuais foram iniciados (artesanato a base de cerâmica e fabricação de tecidos são exemplos de trabalhos desenvolvidos nessa época).


As aldeias neolíticas aos poucos se transformavam em cidades e a nova economia urbana exigiu a escrita, os processos de contagem e os padrões de mensuração.


Foi nesse ambiente de transformação (entre 8.000 e 3.000 a.C.) que o pensamento contábil experimentou progressos significativos, pois o controle e a informação sobre a riqueza tornaram-se indispensáveis a uma estrutura sócio-econômica mais sofisticada que se instalara.


Datam do período neolítico as descobertas arqueológicas de tábuas cuneiformes e caixas de barro com fichas de argila depositadas em seu interior que na expressão de Paulo Schmidt (SCHMIDT, 1996:21) representavam o “costume sumeriano para identificar devedores ou outras pessoas”.


Segundo Mattessich (MATTESSICH, 1994, apud SCHMIDT, 1996:21), os principais estágios pré-históricos do desenvolvimento da Contabilidade podem ser classificados pela seguinte cronologia:


I. Inicia em 8.000 a. C. quando o homem desenvolveu técnicas de agricultura e da criação de animais. Nesse momento já apresentava formas de controle de estoque e da movimentação de produtos por meio de fichas de barro de formatos diferentes que eram instrumento de identificação para cada tipo de mercadoria.


II. O aperfeiçoamento desse sistema de controle veio a ocorrer entre 4.400 e 3.250 a. C. com o surgimento do esquema de garantia com o selo sobre os envelopes de barro que continham as fichas contábeis. Outros tipos de fichas apareceram, com novos formatos e muitas destas eram perfuradas a indicar produtos manufaturados. Nesse período, o controle das mercadorias passa a ter um aspecto legal no sentido de dar garantia de fidelidade ao sistema contábil em uso.


III. Entre 3.200 e 3.000 a.C. devido ao incremento na atividade mercantil (sedimentada na troca de produtos) bem como ao aumento de mercadorias em circulação, o sistema de fichas contábeis tornou-se complexo, exigindo que se buscassem alternativas que facilitassem a identificação do patrimônio. A forma inicialmente encontrada foi a inscrição nas superfícies dos envelopes de barro das fichas contidas no seu interior, constituindo uma espécie de demonstrativo do patrimônio. Assim, a evidenciação dos ativos (representados pelas fichas guardadas dentro dos envelopes) passou a ser feita externamente numa indicação da necessidade de tornar ágil a informação acerca da riqueza acumulada, ou seja, não mais seria necessária a contagem das fichas para se saber quanto possuía de bens um determinado proprietário, bastando, para isso, verificar as inscrições externas dos envelopes de barro.


O exercício das atividades de registro e controle na antiguidade não deixam dúvidas quanto a sua natureza contábil. Tal afirmação, segundo Lopes de Sá (SÁ, 1997:25), tem sido ratificada pelas provas arqueológicas encontradas em solo oriental, tais como as de Uruk (capital religiosa da Suméria), Jemdet-Nasr, Ur-Arcaico e Lagash.


Tanto a civilização oriental quanto a ocidental apresentaram contribuições importantes para o progresso da Contabilidade, naturalmente cada uma com características próprias em função da cultura e do nível de desenvolvimento sócio-econômico alcançado em vários momentos de suas histórias.


3. As Contribuições do Oriente


No antigo Oriente Próximo (constituído pelo Egito, Arábia, Síria, Palestina, Mesopotâmia, Armênia, Irã e a Ásia Menor), mesmo antes do aparecimento da moeda, que aconteceu por volta do século VII a.C., já se verificava uma atividade mercantil intensa, por meio do intercâmbio de mercadorias, como também se configurava a base do que viria a ser, mais tarde, um sistema bancário.


No chamado período Pré-Dinástico (aproximadamente em 3.500 a.C.) os egípcios já possuíam escrita hieroglífica. O surgimento do papiro e o aperfeiçoamento da escrita de modo a simplificá-la proporcionaram meio eficaz para a racionalidade da escrita contábil (SÁ, 1997:26).


No Egito dessa época o Estado era centralizado e intervencionista, controlando e fiscalizando toda a economia. O regime tributário instituído, sustentado por uma austera cobrança de impostos, foi responsável pelo desenvolvimento da Contabilidade nessa região, já que essa atividade estatal exigia controle apurado e informação precisa, possível apenas por meio de um sistema que utilizasse a conta como base de registro.


Na Mesopotâmia, em 2.500 a.C., já existiam as cidades independentes. A chamada Revolução Urbana (resultante do desenvolvimento sócio-econômico vivido pela civilização mesopotâmica e que resultou na transformação das aldeias em cidades independentes) promoveu a geração de excedentes para o comércio bem como impulsionou a atividade artesanal.

A arqueologia oferece registros que evidenciam a existência de um intenso intercâmbio comercial na Mesopotâmia, bem como da existência de uma escrita, chamada cuneiforme (provavelmente uma invenção dos sacerdotes sumerianos), que se constituía em sinais feitos com estilete em tabletes de argila úmida que ao serem secos, por exposição ao sol ou cozidos no fogo, ganhavam resistência e durabilidade. Nessas pequenas placas de argila foram encontradas inscrições que representavam cálculos de matemática financeira e de geometria. Segundo Eldon S. Hendriksen (HENDRIKSEN, 1999:42), os arqueólogos crêem que tais fichas também eram usadas para fins contábeis.

Paulo Schmidt (SCHMIDT, 1996:21) indica em sua tese a descoberta arqueológica de 49 fichas de barro no norte da Babilônia (aproximadamente em 2.000 a.C.) que provavelmente representavam a dívida de um pastor que recebera um rebanho de carneiros. Ainda, segundo a narrativa do autor, existia uma tabela de pedra com inscrições cuneiformes que se acredita era usada para identificar o direito do proprietário do rebanho. As citadas fichas eram depositadas em uma caixa de barro e o registro referente à movimentação de um animal para outra pastagem ou para a tosquia era efetivado transferindo-se a ficha correspondente para outra caixa (cada animal era identificado por uma ficha).

Pela afirmação de Lopes de Sá (SÁ, 1997:24) “a escrita cuneiforme, da Mesopotâmia, basicamente contábil, (...) foi um desses progressos que, como os da era lítica, orgulham o conhecimento da Contabilidade, por sua qualidade como expressão do pensamento”. Ainda segundo este mesmo autor (SÁ, 1997:25) as civilizações da Suméria e da Babilônia (Média Mesopotâmia) alcançaram evolução tal que é possível identificar registros dessa época que expressam o conhecimento nas áreas de custos e orçamento, bem assim na elaboração de demonstrativos contábeis com qualidade surpreendente.

Na Índia do Norte também podem ser localizadas algumas contribuições para a Contabilidade. Por volta do ano 300 a.C. já existiam conceitos e definições de Contabilidade, apresentados por um sábio oriental chamado Kautilya em seu livro “Arthasastra” (SÁ, 1999).

Narra Lopes de Sá (SÁ, 1999) que na Índia dessa época é possível identificar estudos sobre questões ligadas a vários assuntos contábeis. Por exemplo, havia a preocupação em separar o que era lucro operacional daquele considerado não-operacional (ou extraordinário), bem como a apresentação de idéias próximas do que se denomina hoje de regime de competência.

4. A herança do Ocidente

Do Ocidente destaca-se a herança deixada pela cultura greco-romana para o conhecimento humano. Berço de grandes pensadores, as civilizações gregas e romanas ofereceram ao mundo a base do pensamento filosófico e científico.

Na Grécia, à época de Clístenes (final do século VI a.C.), iniciou-se uma era de reformas administrativas que culminou com a implantação de um regime democrático. Com Péricles (que governou entre 461 e 431 a.C.) foi consolidada a nova ordem política fundamentada na democracia escravista.

Nesse momento da história grega, a economia experimentou grande prosperidade; foi instituída a “mistoforia” (que representava o pagamento àqueles que serviam à administração pública); a ação política das camadas menos favorecidas (à exceção dos escravos, estrangeiros e mulheres) ganhou maior representatividade; houve aumento da oferta de empregos por meio do incentivo às grandes construções públicas (AQUINO, et al, 1980:200).

Em Atenas, a administração financeira do Estado estava a cargo de colégios especializados, dentre os quais destacava-se os do “apodéctai”, ao qual cabia a função de chefiar a Contabilidade Pública. Para a elaboração do orçamento estatal, que competia à “Bulé” (Conselho), a escrita contábil mantida pelos “apodéctai” era indispensável como fonte de informações sobre as receitas e despesas do Estado (GIORDANI, 1992: 219-220).

A divulgação da atividade financeira do Governo era feita por meio dos registros contábeis inscritos em lápides de mármores que, expostas em praças, tornavam público o fluxo de caixa do Estado (SÁ, 1997:29).

Afirma Paulo Schmidt (SCHMIDT, 1996:31-32) que em Atenas, na Grécia, foi identificado um dos documentos contábeis mais evoluídos da antiguidade, representando o registro de todos os contribuintes de impostos da civilização grega.

Roma, por sua vez, apresenta em sua história momentos de grandes conquistas territoriais e de domínio econômico invejável.

A civilização romana inicia sua história por volta de 753 a.C. como uma comunidade agrícola situada territorialmente em uma região privilegiada por caracterizar-se como rota terrestre e fluvial entre o mar e o interior e entre o sul e o norte da península itálica. Com a intensificação do comércio, Roma tornou-se o centro comercial de todo o Lácio.

O expansionismo territorial de Roma se deu em função da necessidade de buscar novas terras e ampliar as rotas comerciais. Por esse fato, aos poucos, toda a península itálica era dominada pelos romanos, inserindo-se também neste comando quase toda a bacia do Mediterrâneo.

Com a extinção da República (em 31 a.C.), quando Otávio assumiu o poder2, iniciou-se a fase imperial de Roma que marcou, durante os dois séculos seguintes, um período de grande domínio político e econômico. Nesta fase, consolidou-se o imenso império romano com uma estrutura administrativa complexa, constituída de diversas economias agrícolas e comerciais.

Os estados conquistados proporcionaram à economia romana o controle das rotas comerciais, bem como o aumento do excedente disponível, gerando o acúmulo de riqueza. O intercâmbio mercantil com outras civilizações (em particular aquelas situadas na Mesopotâmia e na China) facilitou a importação da cultura oriental, que muito influenciou no desenvolvimento e aperfeiçoamento de vários ramos do conhecimento.

Assim é que, caracterizando-se o estado romano como potência econômica e política na vigência do regime imperial (cujo apogeu durou cerca de duzentos anos desde 31 a.C.), ocorrreu intensa produção intelectual no campo da ciência social.

Com muita propriedade afirma Lopes de Sá (SÁ, 1997:32) que “(...) como a riqueza é objeto da ciência contábil, onde esta melhor se desenvolveu, ao longo dos anos, foi sempre onde se encontraram os maiores progressos”.

Roma, portanto, pela imensidão de seu império e pela riqueza que acumulou, tornou-se pólo de disseminação da cultura geral e, nesse particular, insere-se a ciência contábil. O desenvolvimento da Contabilidade na cultura romana permitiu o estabelecimento de um diferencial entre a “rationum ars” (arte das contas)“ e a “ratiocinandi scientia” (ciências das contas), dado o aperfeiçoamento do pensamento contábil alcançado por essa civilização (SÁ, 1997:31).

A Contabilidade Pública exerceu importante papel na gestão dos recursos públicos. Para esta função, inclusive, era indicado um Contador Geral do Estado, que gozava de grande prestígio entre os afortunados membros do governo romano.

A evolução do pensamento contábil do mundo romano na antiguidade não tem sua história apresentada com riqueza de detalhes, haja vista que desta época poucas provas materiais foram identificadas.

Avanços importantes para a Contabilidade foram verificados no Ocidente, principalmente pelas contribuições deixadas pela civilização greco-romana. Durante os primeiros cinco séculos da era cristã a Europa tornou-se campo fértil ao desenvolvimento cultural, em parte pela prosperidade sócio-econômica alcançada pelo Império Romano.


5. Retrocesso econômico e estagnação cultural

Um período de estagnação, no entanto, marcou a Contabilidade a partir do Século V d.C., prolongando-se até o século X d.C. Essa situação decorreu da crise sócio-econômica que se instalou nesse período, principalmente na Europa. Vários foram os fatores determinantes do retrocesso que se estabeleceu: as constantes invasões de povos bárbaros e hunos à Europa Ocidental, bem como a rebelião dos visigodos contra o império romano provocando a desagregação da base econômica e política com o conseqüente desaparecimento da economia de mercado; a formação de monarquias feudais rompendo o crescimento das atividades comerciais; entre outros.

Particularmente em Roma, a partir do final do século II, inicia-se um processo de crise na economia culminando, aproximadamente, em 395, com o rompimento da unidade política entre as bacias mediterrâneas do Ocidente e do Oriente. Paralelamente a esse fato decai o nível cultural da civilização romana, obviamente atingindo todos os ramos do conhecimento.

A queda do império romano, no século V d.C., propiciou o surgimento do feudalismo que basicamente se caracterizou como um produto do retrocesso de uma economia comercial para a agricultura de subsistência.

Enquanto no Ocidente o declínio social, econômico e cultural era evidente, no Oriente não se observava a mesma situação. O foco de desenvolvimento do pensamento contábil volta-se novamente às culturas orientais. Esta afirmação fundamenta-se na narrativa de Lopes de Sá (SÁ, 1997:34) de que no Oriente “(...) estruturou-se um critério de registros que mais tarde se aperfeiçoaria na Itália, na baixa Idade Média, e que seria denominado de partidas dobradas ou partidas duplas”.

Os povos árabes também não foram influenciados pela decadência econômica da civilização romana. As conquistas desses povos, a partir de 685, influenciadas pela fé islâmica idealizada por Maomé, constituíram-se em fator preponderante para disseminação, na Europa, da cultura deste povo (a álgebra, a noção do “zero”, até então desconhecida, e o sistema numérico arábico são alguns exemplos que facilitaram a idealização matemática de várias teorias).

Vários séculos se passaram e só a partir do século X é que novamente o acúmulo de excedentes, motivado pela própria evolução natural do sistema feudal, voltou a movimentar a riqueza quando a demanda européia por produtos suntuários cresceu e com ela novo ímpeto foi dado à expansão comercial.

Com a intensificação do comércio na Europa, em especial a partir do século XII, consolidando-se o uso da moeda à base da cunhagem do ouro, também ressurgem as instituições financeiras e com elas as letras de crédito. Na Itália os cambistas cedem lugar aos banqueiros, mais organizados e com um volume de fluxo financeiro muito maior, inclusive com operações de crédito mais sofisticadas, como por exemplo o desconto de títulos. Os empreendimentos bancários, pelo menos até o século XIV, eram de natureza quase que familiar. “Somente com a evolução da Contabilidade, com a introdução do método das partidas dobradas, em meados do século XIV, é que se tornou possível o surgimento de verdadeiras empresas. A primeira empresa bancária é a casa de San Giorgio, fundada em Gênova em 1407” (FILHO, 1977:154).

As “Cruzadas”, que aconteceram entre os séculos XI e XIII, deram impulso ao comércio entre a Itália e o Oriente e lançaram as bases para o exercício da atividade mercantil por meio de sociedades, entendidas essas como entidades distintas das pessoas de seus proprietários.

Surgem, em meio a um crescente intercâmbio comercial entre o Ocidente e o Oriente, as sociedades comanditas como forma encontrada pelos mais afortunados de empregar seu dinheiro nos empreendimentos comerciais. Nova demanda, então, pelo controle e acompanhamento da participação acionária nas companhias desafia os pensadores contábeis da época no sentido de aperfeiçoarem os métodos necessários a satisfazer à exigência pela informação acerca do capital aplicado.

A Contabilidade na Europa, em todo o período de retrocesso sócio-econômico, político e cultural permaneceu adormecida em termos de evolução de suas técnicas. No entanto, com a retomada das atividades comerciais (que no domínio do feudalismo se restringia a pequenas feiras locais, pois grande parte dos produtos era consumida dentro do próprio feudo onde era produzida) a necessidade de controle e informação de natureza financeira, patrimonial e econômica trouxe novo alento ao desenvolvimento da Contabilidade como instrumento capaz de fornecer subsídios para o gerenciamento dos negócios.

6. Luca Pacioli – o publicista do Método de Veneza

A despeito de as atividades comerciais na Europa terem ganhado novo fôlego entre os séculos XI e XV, ainda assim a base econômica européia continuava a ser agrícola. Tal fato de certa forma não propiciava campo fértil ao desenvolvimento da Contabilidade.

Veneza e Gênova, no entanto, eram exceções à regra. Caracterizavam-se como centros comerciais genuinamente independentes. Esta condição decorria de que as duas cidades italianas controlavam o último trecho de longas rotas comerciais que importavam as mercadorias do Oriente Médio. Portanto, nesta região se verificava um ambiente de negócios favorável ao aperfeiçoamento de técnicas contábeis mais sofisticadas.

Foi exatamente em Veneza, em meio ao Renascimento europeu (que representou o florescimento de uma concepção própria da realidade sócio-econômica, política e cultural, em detrimento ao regime feudal), entre os séculos XIV e XV, que surgem os escritos que proporcionariam a sistematização da Contabilidade nos moldes da que conhecemos hoje. Mais precisamente em novembro de 1494, um frei franciscano chamado Luca Pacioli publicou um livro intitulado “Summa de Arithmetica, Geometrica, Proportioni et Proportionalitá”, na verdade um tratado de matemática, mas que dedicou uma parte à exposição do sistema de escrituração por partidas dobradas (“Tractatus de Computis et Scripturis”).

Luca Pacioli, na verdade, é considerado o publicista do “Método de Veneza”, já que a história apresenta relatos de que manifestações de aplicação desse sistema de partidas dobradas podem ser observadas entre os séculos XII e XIII no norte da Itália.

Afirma Paulo Schmidt (SCHMIDT, 1996:38) que uma das primeiras indicações do uso empresarial do sistema de partidas dobradas foi aproximadamente em 1340, na cidade de Gênova. Relata, ainda, este autor, que essa técnica contábil foi desenvolvida por um funcionário público que ao se responsabilizar pela tesouraria da cidade de Gênova, por um período de um ano, sentiu a “necessidade fundamental de responsabilidade e controle sobre os negócios públicos. Os procedimentos de controle contábil das contas da tesouraria e a determinação de um ciclo contábil determinados por este funcionário ajudaram a expandir os métodos contábeis nesta cidade”.

Segundo Lopes de Sá (SÁ, 1997:35), a mais completa prova de um registro fundamentado no método das partidas dobradas data de 1292, apesar de que em Siena, na Toscana, tenham sido encontradas provas que permitem concluir que o processo já estivesse formado.

Luca Pacioli, como já destacado, não é considerado o idealizador da técnica das partidas dobradas. Mas a partir da obra desse frei franciscano a Contabilidade passou a ser estudada e praticada de forma sistematizada, já que com a disseminação em maior escala do método das partidas duplas houve uma unificação de procedimentos para a escrituração de natureza contábil.

7. Conclusão

Vários momentos históricos marcam um maior ou menor grau de aperfeiçoamento do pensamento contábil. Cada estágio sócio-econômico das civilizações tem justificado um nível diferente em relação à demanda dos métodos contábeis no sentido de dar suporte à necessidade de informação útil ao gerenciamento dos negócios.

Assim é que a Contabilidade, como hoje a conhecemos, caracteriza-se como um produto da própria evolução da humanidade. Desde os primórdios, quando o homem intuitivamente procurava controlar os meios necessários à sua sobrevivência, as técnicas contábeis já se faziam presentes, ainda que de forma primitiva. O aperfeiçoamento dessas técnicas ocorreu de forma espontânea e natural à medida que a estrutura econômica e social das nações apresentava-se cada vez mais sofisticada e complexa.

Responder aos anseios daqueles que têm necessidade da informação de natureza patrimonial, financeira e econômica das células sociais foi e continua sendo um desafio da Contabilidade; e é neste sentido que se observa cada momento de evolução do pensamento contábil.

Notas

1 Segundo Lopes de Sá (SÁ, 1997:20), historiadores e arqueólogos como Federigo Melis e L. Figuier, respectivamente, não deixam dúvidas quanto a natureza contábil de tais manifestações humanas.

2 Otávio fazia parte de um triunvirato, ao lado de Marco Antônio e Lépido, que foi formado após o assassinato de César para lutar contra os republicanos (GRIMAL, 1984:50).

Referências Bibliográficas

AQUINO, Rubim Santos Leão de; FRANCO, Denize de Azevedo; OSCAR, Guilherme Pahl

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FILHO, Francisco de B.B. de Magalhães. História Econômica. São Paulo: Sugestões Literárias S/A, 1977.

FIGUIER, L. L’gomme primitif. Paris: Hachette, 4ª ed., 1874

GIORDANI. Mário Curtis. História da Grécia. Petrópolis: Vozes, 5ª ed., 1992.

GODINHO, Vitorino Magalhães. Os descobrimentos e a economia mundial. Lisboa: Editorial Presença, 2ª ed., 1981.

GRIMAL, Pierre. A Civilização Romana. Lisboa: Edições 70, 1984.

HENDRIKSEN, Eldon S. e BREDA, Michael F. Van. Teoria da Contabilidade. São Paulo: Atlas, 1999.

HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 20ª ed., 1984.

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WATANABE, Ippo. O quingentenário do “Tractatus de Computis et Scripturis”. Revista Brasileira de Contabilidade, Ano XXII, nº 82, março de 1993.



Resumo

O texto apresenta uma retrospectiva histórica da Contabilidade inserida no contexto da evolução sócio-econômica e cultural das civilizações. O objetivo maior é demonstrar que a Ciência Contábil é um produto da própria evolução da humanidade e que o aperfeiçoamento das técnicas contábeis ocorreu de forma espontânea e natural, fruto de uma maior ou menor demanda da sociedade em relação à necessidade de informação útil para o gerenciamento dos negócios.



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